sexta-feira, 12 de março de 2010

Pomba-Gira da Figueira

As lágrimas desceram lentamente pelo rosto de Giulia no momento em que ela fechou a porta e olhou para a cama velha com lençóis amarelados. Ali, naquela pocilga, passaria a viver a partir de agora. Antigas lembranças passaram diante de seus olhos. Resquícios de um tempo em que imaginara ser feliz. O casamento com Aprígio parecia ter sido há tanto tempo, e na realidade apenas cinco anos se passaram. O amor enorme que crescia a cada dia nos tempos de noivado, foi aos poucos se transformando em um apagado sentimento sem definição. Amizade? Não, nem isso, apenas desamor, acompanhado de uma cruel sensação de mágoa. Dias e noites passados em solidão conseguiram destruir o castelo de sonhos. Quando conheceu Hugo, amigo de seu marido, o mundo pareceu criar novas cores. Ele sim, lhe dava atenção e carinho. Um mês inteiro de amor sem medida, paixão tórrida que arrebatava seu corpo e mente em total loucura descuidada. Aprígio um dia voltara, sem aviso, e os pegara em sua cama. Alucinado pelo ódio, desferiu três tiros sobre o amigo, matando-o instantaneamente. Ela, nua, correu. A lembrança das janelas se abrindo com pessoas apontando sua nudez entre comentários maldosos ainda envergonha. Alguém (quem seria?), jogou um velho vestido sobre ela que pode enfim cobrir-se, mesmo enquanto corria. Conseguira alguns trocados com uma prima que, no entanto, não a queria por perto e foi com esse dinheiro que alugou esse quarto miserável em que agora se encontra. Não há um amigo, um parente ou mesmo conhecido que a aceite e lhe estenda a mão. Sua vida acabou por completo. Na pequena cidade não há quem não a aponte com maldade (um pouco de nojo também). Ninguém entende o que se passou e ninguém quer escutá-la. Mas se nem ela mesma consegue entender e se perdoar, como esperar isso dos outros? Perdida em meio a esses pensamentos, relanceia o olhar pelo aposento e nota, a um canto, um lençol rasgado. É isso! Pega o pano e percebe que o rasgo, se aumentado, será uma grande tira. Lentamente passa a rasgar e amarrar as tiras. A janela é alta e nela prende a ponta do tecido, a outra ponta é enrolada no pescoço. Arrasta o pequeno criado-mudo e sobe. Com um pequeno pontapé no móvel, lança-se à morte. Seu espírito totalmente atordoado perambulou por negros caminhos de escuridão profunda. Anos se passaram até que Giulia conseguisse perceber os erros que cometera. Hoje, passadas algumas décadas, ela atende em nossos terreiros com o nome de Pomba-Gira da Figueira. Tornou-se mais uma trabalhadora dessa grande falange que, apesar de ser pouco conhecida, sempre é lembrada em nossas trunqueiras.
Laroiê a Pomba-Gira da Figueira!

Luiz Carlos Pereira

4 comentários:

Anônimo disse...

Muito triste é uma realidade, a reflexão serve não apenas no sentido de traição entre casais, mas qualquer tipo de traição nesta vida, sentido de perdão , incompreenção entre as peassoas...significativa a história.

Anônimo disse...

SOU DEVOTO DA MÃE FIGUEIRA,ISSO QUASE ACONTECEU COMIGO,POREM NOSSO AMOR SUPERA TUDO....PEDRO PAULO TE AMO MUITO.

Raffo disse...

Tenho apenas três meses de umbanda. Não entendo muito, vou procurar saber mais sobre a história da minha grande dona Pomba Gira da Figueira. Mas pelo que Maria Padilha Rainha me falou, ela se enforcou em uma figueira.

thalita disse...

descobri a pouco q tenho a figueira e estou buscando ajuda para conhece-la melhor e cuida-la.meu face é thalita lopes da cidade d betim,c alguem puder m ajudar!!!